Terapia Génica e Edição Genómica

A edição genética baseia-se num conjunto de tecnologias que permitem alterar o DNA de um organismo (MedlinePlus, 2022). As nucleases sítio-específicas induzem quebras na dupla hélice de DNA, ativando as vias de reparação celular para introduzir a edição desejada.

O Papel das Nucleases

Estudos recentes demonstram que esta técnica está a ser desenvolvida para realizar modificações de forma sítio-específica. As nucleases podem ser introduzidas nas células como proteína recombinante, RNA mensageiro transcrito in vitro ou a partir de plasmídeos de expressão por transfecção, eletroporação, nanopartículas ou com vetores virais (Iancu, 2018).

Existem inúmeras classes de ‘nucleases projetadas’, incluindo nucleases de dedo de zinco (ZFNs), nucleases efetoras semelhantes a ativadores de transcrição (TALENs) ou repetições palindrómicas curtas agrupadas e regularmente interespaçadas com a proteína (CRISPR/Cas9) (Iancu, 2018).

CRISPR/Cas9: O Paradigma da Terapia Génica

Clustered Regularly Interspaced Short Palindromic Repeats

O CRISPR-Cas9 é um método adaptado de um sistema natural que as bactérias utilizam como defesa imunitária para memorizar identificações virais. Se um mesmo vírus infetar a bactéria novamente, são produzidos segmentos de RNA a partir dos conjuntos CRISPR que se ligam a regiões específicas do DNA viral (MedlinePlus, 2022).

A escolha deste sistema deve ter em conta a eficiência do método e o número de efeitos off-target gerados (Iancu, 2018).

Como ocorre a edição ?

1. Reconhecimento

O complexo Cas9 localiza e liga-se a uma sequência obrigatória conservada no genoma, denominada PAM (Protospacer Adjacent Motif).

2. Desnaturação

A ligação ao sítio PAM induz o RNA guia a promover a desnaturação da dupla hélice. O RNA guia hibridiza estritamente com a fita alvo.

3. Clivagem

O emparelhamento adequado ativa os domínios nucleásicos da Cas9, que efetuam incisões resultando numa quebra de dupla fita (DSB).

4. Reparo

A maquinaria celular repara a quebra. Frequentemente, ocorrem indels que inviabilizam a expressão, levando ao knockout do gene.

Aplicações da Cas9

Beyond editing: repurposing CRISPR–Cas9 (Antonia A. Dominguez, 2015)

Aplicações Expandidas (Beyond Editing)

Para além de cortar o DNA, a proteína Cas9 pode ser modificada para se ligar especificamente, permitindo outras aplicações práticas fundamentais na biotecnologia.

  • Edição de Bases: Ao associar a Cas9 a enzimas específicas, é possível alterar bases de nucleótidos quimicamente, sem causar quebras na cadeia.
  • Regulação Génica: Utilização de uma versão inativada (dCas9) para transportar fatores que estimulam a atividade e transcrição do gene, ou componentes que promovem o seu bloqueio e silenciamento.
  • Rastreio Fluorescente: Adição de marcadores fluorescentes ao complexo para mapeamento físico do material genético e análise da estrutura tridimensional dos cromossomas.

Interseção com a Imunoterapia

Células T com Recetores Quiméricos (CAR-T cells)

Os CARs são recetores quiméricos provenientes de linfócitos T que sofreram modificações genéticas ex vivo, permitindo o reconhecimento de antigénios tumorais de forma independente do Complexo Major de Histocompatibilidade (MHC).

Estes recetores são constituídos por um endodomínio (ativação), um domínio transmembranar e um ectodomínio (especificidade). As células CAR-T são classificadas em cinco gerações com base na composição do endodomínio. A sua utilização consolidou-se no tratamento de cancros hematológicos (FDA/EMA), mas o sucesso em tumores sólidos ainda enfrenta a barreira da heterogeneidade antigénica (Zugasti et al., 2025).

Cronologia CAR-T
Fig 9. Cronologia de desenvolvimento.

Continue a Explorar as Terapias Avançadas

A edição genómica e a imunoterapia representam apenas uma vertente das ATMPs. Descubra como a engenharia de tecidos e a manipulação celular estão a moldar o futuro da medicina e da regeneração biológica.

Vacinas Oncológicas

Formulações biológicas que induzem resposta adaptativa através da apresentação de antigénios, estimulando a expansão de linfócitos T citotóxicos (ACS, 2025).

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